sobre pessoas não-binárias que se assimilam ao sistema e não ajudam a comunidade (1/2) 

Pode parecer absurdo o que vou dizer, mas nem toda pessoa não-binária está interessada em garantir e manter direitos da comunidade.

Teoricamente, dos grupos dissidentes de gênero, pessoas não-binárias são aquelas com menos direitos, e as mais sujeitas a todo tipo de exclusão nos setores social e político e de violência baseada em gênero.

Contudo, não é um grupo homogêneo, assim como nenhum grupo minorizado é. As experiências não-binárias são diversas, e muitas se aproximam das experiências típicas de pessoas binárias. Sendo assim, o que acaba servindo já para pessoas binárias acaba servindo para algumas não-binárias de certas condições.

Falando sobre linguagem. Há pessoas não-binárias que não se importam em serem tratadas pela linguagem designada, ou por qualquer opção da língua padrão, ou por qualquer opção dentro e fora da língua padrão. Sendo assim, e se no terceiro caso a pessoa mantém uma total indiferença com tratamento, pessoas assim podem não precisar se preocupar com a implementação de um terceiro gênero gramatical na língua. E não é por um acaso que gente n-b que não se manifesta sobre o assunto ou é declaradamente contrária são sempre pessoas dentro dessas condições, principalmente a primeira e a segunda.

Falando sobre retificação de nome e sexo. Há pessoas não-binárias que estão confortáveis ou não se importam com o nome civil e/ou o marcador de sexo designado. Portanto, acabam não procurando nenhuma mudança. Outro(s) nome(s) que poderiam querer usar poderia(m) ser usado(s) em seus círculos sociais ou outros espaços que frequentam que sejam mais inclusivos. O sexo pode ser ignorado se não faz diferença alguma mesmo, ainda mais se essas pessoas não buscam nenhum tipo de transição física. Então, aprimorar os processos de retificação de nome e conseguir um terceiro marcador de sexo pode não ser prioridade de pessoas assim. Podem até achar que um novo marcador é "desnecessário", mesmo que falem mais por ignorância e alienação do que por reacionarismo.

Acompanhar

sobre pessoas não-binárias que se assimilam ao sistema e não ajudam a comunidade (2/2) 

Falando em transição. Há pessoas n-b sem disforias ou sem qualquer vontade de alterar o corpo, e há pessoas com disforias que buscam uma transição "típica". Devido à alienação, ambos os grupos podem até achar que só é possível duas formas de transição mesmo, que nem existe "corpo andrógino". Sendo assim, o que já está disponível até então está bom para ambos os grupos, pois um nem fará uso desses recursos, e o outro já tem algo garantido, por mais que os procedimentos médicos atuais sejam pensados numa lógica totalmente binária; o que, consequentemente, não gera atenção e pesquisa a possíveis novas formas de transição pra quem quer outras opções de corpo. Então pessoas assim podem não achar importante discutir tanto sobre transições, ou discutir dentro do que já existe, por mais que sejam evidentemente tópicos que afetam muito a comunidade. As que fazem transição física podem mudar apenas retificar o marcador para a outra opção que não lhe foi designada.

Explorei sobre esses três tópicos para explicar como há pessoas não-binárias que acabam não se envolvendo em ativismo/militância, e que podem até ser reacionárias com pautas da comunidade, e isso porque se encontram em condições onde as outras pautas não fazem diferença em suas vidas. E muita gente vive nesse individualismo, sem considerar questões maiores que sua realidade.

Assim, se a pessoa está numa posição social mais favorável (algo mais provável com pessoas perissexo, brancas, e com algum poder aquisitivo), ótimo pra ela. E se ela está satisfeita com os acessos típicos de pessoas trans binárias, que bom pra ela também. Mas nada disso é desculpa pra atrapalhar a luta da comunidade. E ninguém assim deveria se prestar a ser token de gente exorsexista, ou ficar tentando comprar aceitação do sistema em detrimento de gente n-b mais marginalizada.

Considerem tudo isso quando encontrarem por aí pessoas n-b que não se envolvem ou que fazem oposição com pautas da comunidade.

· · Web · 0 · 3 · 2
Entre para participar dessa conversa
Colorid.es

Uma instância com foco em pessoas queer/LGBTQIAPN+ que falam português. Saiba mais em sobre.colorid.es!

Qualquer pessoa pode criar uma conta, independentemente de orientação, gênero, relação do gênero atribuído ao nascimento com identidade de gênero ou corporalidade. Só não se esqueça de ler nossas regras!

Hi there, English speakers! You can see information regarding this instance by clicking here!