Uma sequência sobre "quando xingar um grupo privilegiado é danoso?" 

Eu já tinha perguntado em outro lugar faz um tempo o que fazia com que "homens são lixo" fosse uma afirmação considerada muito mais danosa do que "pessoas brancas são lixo" ou "pessoas cis são lixo". (Ninguém me respondeu.)

Afinal, são todas frases puramente falando mal de grupos privilegiados.

A primeira possível conclusão à qual eu tinha chegado era que homem é uma categoria que vai mais além de privilégio, já que existem homens trans e estereótipos que fazem com que certos homens (como homens aquileanos e/ou negros) estejam sob maiores riscos de certos tipos de violência.

Mas isso ainda não me parecia totalmente certo.

Uma sequência sobre "quando xingar um grupo privilegiado é danoso?" (2) 

Afirmações falando mal de homens estão falando de homens como um grupo com poder sobre o grupo que a pessoa está, e somente sobre essa questão de perpetuar opressão. Não são um ataque mais pessoal do que falar de qualquer outro privilégio.

(A não ser que alguém esteja tentando disfarçar outra mensagem por trás, o que acontece, mas não é do que estou falando aqui.)

Eventualmente, percebi que há outro grupo que pessoas têm receio de criticar sozinho: pessoas hétero.

Uma sequência sobre "quando xingar um grupo privilegiado é danoso?" (3) 

Pergunte a alguém cis e LGBT- porque não critica só pessoas hétero ao invés de "cishets", e a pessoa vai responder que é porque não se sente confortável em dizer que pessoas trans hétero a oprimem.

Pergunte a uma pessoa inclusiva porque não critica só pessoas hétero, e ela vai dizer que xingar quem é "hétero" é muitas vezes uma tentativa de excluir pessoas trans, multi, a-espectrais, intersexo ou outras que muitas vezes são condenadas por pessoas LGBT- por "não serem gays o suficiente".

Uma sequência sobre "quando xingar um grupo privilegiado é danoso?" (4) 

De certa forma, isso se encaixa na minha hipótese anterior, já que hétero seria, dessa forma, uma categoria que nem sempre é vista como natural e/ou de absoluto privilégio: como no caso de pessoas trans, a-espectrais e/ou intersexo que são hétero, ou no caso de pessoas multi ou fluidas que são confundidas com hétero em certas situações.

Mesmo assim, eu acho que é mais efetivo focar nas consequências de falar mal de certos grupos privilegiados, e não de quais grupos possuem certa flexibilidade ou certo risco de marginalização.

Uma sequência sobre "quando xingar um grupo privilegiado é danoso?" / consequências queermísicas de falar mal de homens (5) 

Aqui estão algumas das consequências reais que já vi em ambientes onde falar mal de homens é comum:

- Homens trans tendo inseguranças em se identificar/abrir como homens;

- Pessoas aquileanas sendo atacadas por pessoas sáficas por falar sobre sua atração por homens, porque "mulheres são melhores";

- Pessoas não-binárias e mulheres sendo pressionadas a não falar sobre sua atração por homens (que é "nojenta e hétero"), apenas sobre sua atração por mulheres (que é "pura e gay") (obviamente essa gente nem leva pessoas NB muito em consideração);

- Recrutamento de feministas radicais que usam essa vontade de meninas - geralmente adolescentes - de lutar contra o patriarcado para direcionar esta raiva contra homens também contra mulheres trans, pessoas não-binárias designadas homens ao nascimento e mulheres que sentem atração por homens (especialmente se forem multi e/ou a-espectrais).

Uma sequência sobre "quando xingar um grupo privilegiado é danoso?" / consequências queermísicas de falar mal de pessoas hétero (6) 

Aqui estão algumas das consequências reais que já vi em ambientes onde falar mal de pessoas hétero é comum:

- Comportamento LGBT-, muitas vezes começando com medos mais ou menos legítimos de pessoas a-espectrais hétero perpetuarem duaricismo, mas a partir daí justificando que qualquer pessoa que pareça hétero (e talvez cis) não possa fazer parte da comunidade LGBTQIAPN+;

- Pessoas trans/intersexo hétero se sentindo excluídas de espaços que tratam "hétero" como uma classe opressora contrária a "LGBT";

- Pessoas que não podem ser descritas puramente como hétero (por serem hétero e a-espectrais, ou heteroflexíveis, ou afins), ou até mesmo que não são hétero mas que também não são tratadas como gays/lésbicas pela sociedade se sentindo excluídas de espaços para pessoas não-hétero/heterodissidentes (a ponto de algumas pessoas usarem alo-mono-hétero pra descrever pessoas que só podem ser descritas como hétero);

- O distanciamento de adolescentes/jovens adultes LGBTQIAPN+ de qualquer parte da cultura queer que pareça aberta para pessoas hétero, muitas vezes se afastando de quem participa delas e chamando suas comunidades de nojentas e/ou de invasoras da comunidade (alguns exemplos são o termo queer, poliamor, comunidades fetichistas e drag).

Acompanhar

Uma sequência sobre "quando xingar um grupo privilegiado é danoso?" / conclusão (7) 

Basicamente, eu me importo com o que acontece quando esse suposto ódio a grupos privilegiados prejudica grupos marginalizados.

Pra mim, isso é mais importante do que qualquer teoria sobre se tal grupo privilegiado vai além de ser um grupo privilegiado ou não.

Eu posso ter visto um ou outro caso injusto, mas nada tão brutal quanto as situações descritas, em comunidades onde é comum falar mal de pessoas cis, brancas, perissexo, neurotípicas, ablebodied, magras, ricas, que não trabalham com sexo, etc.

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Uma sequência sobre "quando xingar um grupo privilegiado é danoso?" / adendo: "mas e eu?" (8) 

Algumas coisas que quero deixar explícitas aqui:

- Eu entendo que algumas pessoas querem desabafar sobre um grupo que as oprime.

- Porém, acho sempre bom ter em mente o ambiente que elas fazem isso. Será que é mesmo apropriado falar sobre o quanto homens não prestam em um espaço onde boa parte está se esforçando para ser considerada homem em uma sociedade que trata essas pessoas como não-homens?

Será que a pessoa não pode fazer isso em seu grupo de amizades ou numa conta de rede social para desabafos, ao invés de falar disso entre um monte de gente que não sabe de sua intenção?

- Também não acho que ficar adicionando privilégios é uma solução.

Se eu quero falar mal de pessoas hétero e adiciono que são pessoas hétero brancas fora da comunidade LGBTQIAPN+, não só estou deixando um monte de privilégios de lado como se não existissem, como também estou sinalizando que de alguma forma pessoas hétero racializadas e/ou de dentro da comunidade são incapazes de perpetuar heterossexismo, e/ou estou sinalizando que pessoas brancas me oprimem.

Fazer isso é um tapa buraco horrível que é muito fácil de criticar de qualquer ângulo que você resolver usar.

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